Valor Econômico: 04/04/2013
Por Téo Takar, José Sergio Osse e Ana Paula Ragazzi | De São Paulo e do Rio
Entrada de capital estrangeiro na Bovespa, historicamente,
sempre foi sinônimo de alta da bolsa brasileira. Essa relação, no
entanto, foi rompida no início deste ano. O Ibovespa caiu 7,5%, no seu
pior primeiro trimestre desde 1995, enquanto o fluxo de recursos
externos para a bolsa alcançou R$ 8,5 bilhões (US$ 4,2 bilhões), o maior
ingresso desde o segundo trimestre de 2009, segundo a Bovespa.
O
que está por trás desse descolamento é a decepção dos investidores com a
atuação do governo, seja pelas incertezas na condução da política
monetária, seja pelas intervenções em setores como energia e o bancário.
Aliado a isso está o fato de o Ibovespa ser um índice concentrado em
commodities, cuja demanda global também mostra fraqueza.
"Não tem
uma semana que não haja uma notícia, normalmente atrelada a esses dois
pontos, que desestabilize os negócios. A volatilidade está muito grande.
Além disso, é fácil fazer hedge no Brasil, pois a Bovespa tem um
ambiente muito seguro para esse tipo de operação. É fácil ficar short
[vendido] em Brasil", afirma Mauro Oliveira, responsável pela mesa de
ações da corretora Credit Suisse.
De fato, a posição vendida dos
estrangeiros em Ibovespa Futuro nunca esteve tão alta, alcançando 154
mil contratos no fim de março, com volume financeiro de R$ 8,6 bilhões.
Os estrangeiros costumam manter em torno de 100 mil contratos. No
segmento de aluguel de ações - operação que também é usada pelos
investidores que querem apostar na baixa da bolsa -, a bolsa teve
recorde de R$ 89,4 bilhões em março, com estrangeiros respondendo por
20% dos empréstimos.
Além de se proteger contra as oscilações da
bolsa, esses investidores também vinham recorrendo ao mercado futuro
como forma de realizar operações de renda fixa por meio da bolsa e assim
escapar da cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 6%
incidente sobre negócios de renda fixa feitos por estrangeiros.
"É
uma operação clássica, muito utilizada por investidores sofisticados,
no qual se faz uma posição comprada no mercado à vista de ações e, ao
mesmo tempo, uma posição vendida no mercado futuro. O investidor fica
"travado" no mercado e ganha a taxa de juros embutida entre o preço à
vista e o futuro", explica Rossano Oltramari, analista-chefe da XP
Investimentos.
Para afastar especuladores e corrigir distorções
no preço do real, que ameaçavam a competitividade de exportadores
brasileiros, o governo decidiu adotar controles de capitais mais duros.
Em 4 de outubro de 2010, elevou de 2% para 4% a alíquota do IOF
incidente sobre aplicações de estrangeiros em renda fixa. Duas semanas
depois, elevou essa alíquota para 6%.
O efeito desse controle
sobre o câmbio se diluiu nos meses seguintes e, em 27 julho de 2011, o
governo anunciou a imposição de 1% de IOF sobre margens de posições
vendidas em operações com derivativos cambiais na Bolsa de Mercadorias
& Futuros. Um dia antes, o dólar havia marcado sua menor cotação
desde a desvalorização do real, em janeiro de 1999.
Ao "travar"
taxas para aproveitar a diferença de pontos entre o Ibovespa à vista e o
futuro, o investidor estrangeiro consegue ganhos semelhantes ao da
renda fixa, mas sem o "pedágio" do IOF, explica, Carlos Augusto
Nielebock, especialista de bolsa da Icap Brasil. "O estrangeiro está
hedgeado [protegido] na Bovespa, seja pela trava com o futuro, seja
pelas operações de aluguel."
Pelas estimativas de Nielebock, pelo
menos metade dos 154 mil contratos de índice futuro estariam ligados a
operações de "trava" de taxa de juros, enquanto o restante seria,
efetivamente, uma aposta de baixa da Bovespa.
"O México é o
mercado para o qual o Brasil está perdendo espaço", diz Ítalo Abucater,
especialista de câmbio da Icap. "E quem já está aqui, tenta driblar
esses controles de capitais com operações em bolsa travando taxas."
A
avaliação dos especialistas é reforçada por números de fluxo de
capitais de fundos de investimento globais, que são processados pela
consultoria EPFR Global semanalmente. Ao contrário do que mostram os
dados de capital externo divulgados pela Bovespa - que mapeia apenas o
fluxo que entra e sai da bolsa brasileira -, a EPFR indica que os fundos
globais reduziram sensivelmente sua exposição a índices e ações ligados
ao Brasil.
No período de cinco semanas encerrado em 27 de março,
houve uma saída líquida de US$ 1,757 bilhão de recursos para fundos de
ações de países desenvolvidos e também para índices de papéis do México.
O dado contrasta com o fluxo positivo para ativos brasileiros
registrado desde o fim de agosto, segundo a EPFR Global.
Nos
últimos 30 dias, os fundos de índice (conhecidos pela sigla ETF em
inglês) emergentes, como o MSCI Emerging Markets, perderam US$ 5,2
bilhões, com destaque para o fundo de Brasil (MSCI Brazil Capped - EWZ),
que teve saída de US$ 585 milhões. "Temos notado que a aversão do
investidor ao risco cresceu nas últimas semanas após o episódio da crise
no Chipre", observa Nielebock.
Um ponto de atenção será o
vencimento do índice futuro, no próximo dia 17. "Se a percepção de
mercado estiver mais positiva e essas posições não forem roladas, a
situação da bolsa melhora. Se aumentar mais após o vencimento, o quadro
ficará mais preocupante", afirma Oliveira, do Credit Suisse.